Ao longo da vida, principalmente até o início da vida adulta, costumamos seguir roteiros escritos por outros que nos antecederam, nossos pais ou aqueles que exerceram a função de cuidado. Desde tenra idade, recebemos expectativas sobre quem deveríamos ser, quais caminhos mereceriam reconhecimento e o que significaria ter uma vida bem-sucedida. Esses ideais se transmitem nas relações familiares, nas histórias que ouvimos, nos desejos que outros depositam em nós e, por vezes, até naquilo que nunca chegou a ser dito. Incorporamos muitas dessas referências antes mesmo de termos condições de questioná-las.
Não é raro que, em algum momento, aquilo que parecia um projeto pessoal revele também o peso de expectativas herdadas. Uma profissão escolhida para corresponder ao orgulho da família, uma maneira de viver considerada adequada, a necessidade de alcançar determinados marcos ou de sustentar uma imagem de sucesso. Podemos passar anos tentando realizar uma vida que, aos poucos, descobrimos não corresponder inteiramente aos nossos desejos.
A psicanálise nos ajuda a compreender parte desse processo por meio das noções de eu ideal e ideal do eu. O eu ideal diz respeito a uma imagem capturada de nós mesmos associada à perfeição e à completude, como se existisse uma versão capaz de corresponder plenamente ao que imaginamos que deveríamos ser. Já o ideal do eu reúne referências e modelos a partir dos quais avaliamos nossas escolhas, nossas realizações e nosso próprio valor. Essas referências se constituem nas relações com os outros e carregam marcas da história familiar e da cultura em que vivemos.
Crescer e amadurecer também pode envolver o reconhecimento de que não precisamos corresponder à imagem idealizada que construímos de nós mesmos. Mas isso não significa simplesmente trocar as expectativas dos outros por um desejo inteiramente livre de influências. Nossos desejos também se constituem nas relações que nos formaram. O trabalho possível é interrogar essas referências, reconhecer o que ainda faz sentido e perceber quais exigências continuamos tentando cumprir, mesmo quando já não sabemos por quê.
Algumas travessias começam quando nos permitimos questionar o roteiro que parecia definido, para estabelecer outra relação com essa herança familiar e cultural. Há expectativas que podemos preservar, outras que podem ser revistas e algumas das quais talvez seja saudável nos despedir.
Nessas passagens, abandonar uma imagem idealizada de si pode abrir espaço para uma relação menos rígida com as próprias possibilidades, inclusive com aquilo que permanece incerto, contraditório ou inacabado.
Julia Torres
Referência de Leitura
Freud, S. (2010). Introdução ao narcisismo. Em S. Freud, Obras completas: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914–1916) (P. C. de Souza, Trad., Vol. 12, pp. 13–50). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1914).
Lacan, J. (2009). Ideal do eu e eu-ideal. Em J. Lacan, O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud (1953–1954) (pp. 173–190). Zahar.