Mesmo na própria Psicologia, ainda existe certo preconceito em relação à atuação no Judiciário. Persiste no imaginário a ideia de que o trabalho do psicólogo nesse campo se resume a avaliar a "(in)sanidade" das pessoas envolvidas em processos judiciais, identificar desvios ou determinar quem representa um perigo para a sociedade.
Essa representação não surgiu por acaso. Historicamente, a aproximação entre a Psicologia e o Sistema de Justiça foi marcada pela influência do positivismo criminológico, da medicina legal e de concepções que buscavam explicar o comportamento humano a partir de características individuais, frequentemente desconsiderando suas determinações sociais e históricas.
Nesse contexto, ganhou força a figura do psicólogo como um "testólogo", responsável por medir, classificar e identificar características supostamente capazes de explicar a conduta dos sujeitos. A associação entre crime, loucura e periculosidade favoreceu práticas de patologização, rotulação e controle social.
Mas a história da Psicologia não se resume a essa herança. Nas últimas décadas, a profissão tem produzido importantes críticas aos seus próprios fundamentos e práticas, questionando perspectivas que naturalizam desigualdades, individualizam sofrimentos e transformam diferenças em desvios.
No campo jurídico, isso significa compreender que os conflitos familiares, as violências, as vulnerabilidades e os modos de sofrimento não podem ser explicados exclusivamente por características individuais. São fenômenos atravessados por relações de poder, condições materiais de existência e determinações históricas, sociais, raciais e de gênero.
Isso não significa, entretanto, que tenhamos superado definitivamente as práticas que criticamos. A Psicologia continua sendo convocada, muitas vezes, a classificar sujeitos, produzir certezas sobre comportamentos humanos e oferecer respostas simplificadas para questões profundamente complexas.
Um dos desafios éticos da Psicologia Jurídica está em reconhecer os efeitos de poder do próprio saber e resistir à tentação de transformar a escuta em julgamento e o sofrimento em diagnóstico.
Uma Psicologia comprometida com os direitos humanos não pode se limitar a reproduzir as expectativas punitivas ou normalizadoras das instituições em que atua. Sua contribuição está em ampliar a compreensão sobre os sujeitos e suas relações, tornando visíveis dimensões que frequentemente escapam à linguagem jurídica, sem perder de vista os limites de sua atuação profissional.
A Psicologia Jurídica não deve funcionar como braço punitivo do Estado, mas como um campo de conhecimento capaz de produzir análises críticas, eticamente fundamentadas e comprometidas com a dignidade humana.
É necessário sempre nos perguntarmos: que Psicologia estamos produzindo quando nos colocamos a serviço da Justiça?
Julia Torres