A vida nem sempre segue os caminhos que imaginamos e, ao longo dela, alguns planos deixam de fazer sentido, os desejos se modificam e aquilo que parecia se desenhar no horizonte ganha outros contornos. Às vezes, as circunstâncias se impõem e nos exigem outras direções, outras, somos nós que já não nos reconhecemos nos lugares que antes desejávamos ocupar.
As transições fazem parte da experiência humana, como mudar de profissão, encerrar um relacionamento, construir ou recompor uma família, deixar uma cidade, envelhecer ou reconsiderar escolhas feitas há muitos anos são experiências que podem modificar nossa rotina e também a maneira como compreendemos quem somos e o que esperamos da vida.
Algumas mudanças acontecem de forma gradual, quase imperceptível, outras interrompem a continuidade dos nossos projetos e nos colocam diante de questões para as quais ainda não temos respostas. Há também aquelas que desejamos profundamente, mas que, quando finalmente acontecem, despertam sentimentos que não esperávamos encontrar.
Toda travessia envolve, em alguma medida, uma relação com aquilo que deixamos para trás. Mesmo as mudanças desejadas podem trazer dúvidas, inseguranças e sentimentos contraditórios, podemos experimentar entusiasmo diante de uma nova possibilidade e, ao mesmo tempo, sentir falta daquilo que já não faz parte do dia a dia.
Essas experiências nos convidam a pensar sobre os vínculos que estabelecemos com nossos projetos, ideais e identificações. Ao longo da existência, construímos imagens sobre quem somos e quem gostaríamos de ser, investimos afetivamente em relações, escolhas e expectativas que passam a compor nossa maneira de estar no mundo. Quando essas referências se modificam, nem sempre basta tomar uma decisão ou estabelecer novos objetivos para que possamos acompanhar, subjetivamente, as mudanças que estão acontecendo.
Nesse processo, há também pequenos e grandes lutos. Não necessariamente relacionados à morte, mas à perda de uma posição, de um ideal, de uma possibilidade ou de um futuro que imaginávamos viver (Freud, 1917). Reconhecer essas perdas pode fazer parte da elaboração das mudanças, sem que elas precisem ocupar o centro de toda experiência.
Vivemos em uma época que valoriza a capacidade de adaptação e a reinvenção permanentem, mas há um tempo próprio para perceber que determinados desejos já não nos representam, para reconhecer o que ainda queremos preservar e para admitir que algumas expectativas talvez não encontrem realização. Esse tempo não é necessariamente linear, nem é o mesmo para todos. Podemos avançar em determinadas escolhas enquanto permanecemos vinculados a outras, desejar uma mudança e resistir a ela, sentir alívio e tristeza diante de um mesmo acontecimento.
A psicoterapia oferece um espaço de escuta para essas contradições, sem pressupor que exista uma maneira ideal de atravessar as diferentes etapas da vida. Trata-se de abrir possibilidades para interrogar os sentidos que atribuímos à nossa história, às nossas escolhas e aos desejos que nos movimentam.
Recalcular a rota, nesse sentido, é reconhecer que, ao longo do caminho, também nos modificamos, encontrar espaço para que novos caminhos possam ser pensados.
Julia Torres
Referência de Leitura
Freud, S. (2010). Luto e melancolia. Em S. Freud, Obras completas: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914–1916) (P. C. de Souza, Trad., Vol. 12, pp. 170–194). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1917).